4 de junho de 2009

As várias faces da barbárie

Acabo de rever a matéria da revista Veja sobre a morte terrível de um menino arrastado por assaltantes em um carro no Rio de Janeiro, acontecido no mês de fevereiro – a matéria traz a data de 14/02/07. Mesmo passados mais de três meses do caso hediondo e da publicação da matéria, entendo que é importante falar a respeito, ainda que
tardiamente.

Trata-se de um fato escabroso. Porém, a matéria é tão escabrosa quanto o fato. E um horror não justifica o outro. Eu, como pessoa, posso, num momento de pungência, dizer qualquer coisa sobre o caso, inclusive que os assassinos deveriam ser picados em pedacinhos, queimados vivos. Qualquer um de nós pode dizer isso, dada a aversão que o crime provoca. Mas, um veículo de comunicação deve ter mais cuidado ao tratar de temas como esse. O mesmo se aplica a qualquer instituição democrática, ou deveria.

O apelo sensacionalista, raivoso, com sangue escorrendo pelas páginas, é sinal de barbárie. De uma barbárie análoga à do assassinato. Assim como foi um ato de barbárie os policiais militares obrigarem os assassinos a mostrar o rosto para a foto (acima) que ilustra, em destaque, a matéria – representam uma instituição democrática, lembremos bem. E selvageria igual foi cometida pela revista ao exibir a foto com destaque. O título da matéria "Sem limites para a barbárie", pode ser aplicado ao crime horrendo, ao ato dos policiais e à matéria como um todo. Realmente, parece não haver limites para a barbárie...

A revista "assina em baixo"
Veja-se que não há como buscar atenuantes para o que foi cometido contra a criança. Não é fácil entender o que levou os assassinos a um ato tão horripilante. Seria compreensível se os pais do menino, se tivessem oportunidade, se vingassem dos criminosos com requintes de crueldade. Seria compreensível, não elogiável, se for levado a sério o que se defende como civilização. O que não é compreensível, o que não se pode aceitar, é que a revista tenha publicado uma matéria tão bárbara, tão boçal, tão abominável, abominável a ponto de se pôr ao nível dos "monstros" que deplora. Aliás, o jornalista Marcelo Bortoloti, que qualifica os assassinos como monstros, bem pode receber a mesma qualificação.

O cúmulo, porém, está em trechos da matéria, com letras em itálico – o que provavelmente indica que são frases de alguém. A primeira delas é emblemática da estupidez, da bestialidade que, não sem saberem o que estão fazendo, o jornalista e a revista incitam. Nela, pérolas do antipensamento, do ódio ao pensar: "Chega de explicações. (...) O martírio público do menino João Hélio está destravando a língua de dezenas de explicadores. São os mesmos que passaram a mão na cabeça dos ‘meus guris’ que desciam ao asfalto para subtrair um pouco do muito que os ricos tinham e, assim, sustentar a mãe no morro. Chega de romancear o criminoso, de culpar abstrações como a ‘violência’, o ‘neoliberalismo’, o ‘descaso da classe média’...".

Ora, há que se concordar que não há explicações para esse ato. Na verdade, não há explicações adequadas para nenhum ato, simplesmente porque, como o texto em itálico sugere, há sempre formas diversas de esclarecer qualquer coisa, sempre insuficientes e, não raro, mentirosas. O caso não é para explicações mesmo. No entanto, o autor daquela diatribe textual não está simplesmente dizendo isso. Está atacando toda e qualquer forma de pensar. Para ele, ou ela, não há que se compreender mais nada: devemos agir movidos pelo ódio e ponto final. Devemos ser tão cruéis e desumanos quanto os assassinos, quanto Hitler (que é citado em outro trecho do texto), ou quanto os bolcheviques (retirados desnecessariamente do baú da história, quando há exemplos bem mais sórdidos e recentes de ações dos heróis estadunidenses). O texto, se é de algum leitor, deveria ser publicado, no máximo, na seção de cartas, ilustrando a revolta de um cidadão ou cidadã em relação ao horror do crime. Jamais fazer parte da matéria. Assim ocorrendo, a revista "assina em baixo" a barbárie.

Surgiram do nada
Creio ser desnecessário listar toda a seqüência de outros dislates contidos no texto da matéria. São linhas e linhas, nas quais o indizível sofrimento da família é traduzido como um dramalhão, contrapostas a outras muitas linhas nas quais as qualificações de monstruosidade redundam. A família merecia mais respeito, o leitor idem.

O crime é realmente de uma barbaridade provavelmente nunca vista na história policial brasileira. A matéria é certamente uma das mais estúpidas e bárbaras já produzidas na história da imprensa brasileira. Duas faces da barbárie que, se não podem ser negadas ou esquecidas, devem nos dar forças de lutar para que não ocorram mais.

A sociedade brasileira mostra, há muito, sinais de barbárie. Se esta fosse apenas, ou principalmente, apanágio dos "meus guris", o problema seria de fácil resolução. Mas, não é. Não existe o tal "descaso da classe média". O que existe é uma tendência irrecorrível a entender os "meus guris", bem como seus pais e avós, ou como coitadinhos ou como monstros. Só com essas duas faces podem ser reconhecidos. São, também, abstrações.

Essa forma de entender os "meus guris" parece trazer uma interpretação terrificante do dito cristão "ama teu próximo como a ti mesmo": se o próximo não é nem um pouco parecido com o "ti mesmo", como amá-lo? Como sequer lhe reconhecer a existência? Quem não se parece comigo, então, passa a ser apenas uma "imagem mental subjetiva, irreal", que não é mais do que um sinônimo de abstração. E ali, no abstrato, como bem intuiu o texto em itálico, qualquer coisa pode ser posta, principalmente paixões bárbaras e ódios.

Há uma grande semelhança entre o texto da revista, destinado à abstrata classe média, e o modo pelo qual Edward Saïd afirma que os sionistas estadunidenses entendem os palestinos. Saïd nos recorda de um livro escrito por Joan Peters, From Time Imemmorial, no qual a autora afirma que não havia palestinos na Palestina antes de 1948. Eles só apareceram mais tarde, explodindo por aqui e ali, como por encanto, por pura maldade. Da mesma forma, como aparições demoníacas, gente como os assassinos do menino João Hélio, surgiram do nada. Não se sabe como, pois não havia ninguém nas favelas...

Por Luiz Geremias em 29/5/2007

Jornal "põe fogo" na escola

Há textos jornalísticos que deixam ao leitor uma dúvida: são para rir ou para chorar? Um bom exemplo está na matéria publicada à página 4 do jornal curitibano Gazeta do Povo em sua edição do dia 18 de maio de 2007. O jornalista Miguel Portela assina os 4 parágrafos de um texto tragicômico que começa com uma incriminação certeira e termina de forma inesperada, com o sumiço do incriminado.

O título é direto e claro: "Aluno põe fogo em carro de professora". Fato ocorrido no Colégio Estadual 14 de novembro, que fica na cidade de Cascavel, oeste do Paraná. Ao lê-lo, o leitor tem a trágica consciência de um fato grave. Um ato criminoso contra um bem de uma professora perpetrado por um de seus alunos que, pelo enunciado, já estaria identificado.

O lead traz uma sinistra constatação: "Os casos de intimidação e violência contra professores já não são novidade nas escolas em Cascavel". Dá conta ainda que o carro estava no estacionamento do colégio e que um professor apagou as chamas. Até aqui, o leitor segue a linha de raciocínio proposta pelo título e aprofundada emocionalmente pela comprovação textual da renitência dos casos de vandalismo e violência que os jovens estudantes cascavelenses têm praticado contra seus mestres. Sem dúvida, uma tragédia que mergulha o leitor em um estado de revolta e de comiseração pelos destinos da sociedade em que vive.

Sai o culpado, entra o suspeito
Mas, surpresa! A última linha do lead quebra todo o encanto trágico, toda a trama dantesca que vinha se configurando. O jornalista, inesperadamente, escreve: "Um estudante é o principal suspeito"! O leitor pode estacar a leitura e gritar, ultrajado: "Como assim, o principal suspeito? O título da matéria dizia outra coisa!". E certamente correrá para o restante da narrativa, no afã se agarrar à esperança de não ter sido feito de bobo nas primeiras linhas da matéria. Mas foi.

O texto informa que a professora crê ter sido a explosão do seu veículo a intenção do aluno – que o leitor não tem certeza se já está identificado e preso, como dizia o título, ou se é apenas um personagem virtual, inventado para dar sentido à trama. Um pano em chamas, encharcado em álcool, teria sido posto no tanque de combustível. O leitor descobre que, apesar da gravidade do fato, a professora se recuperou do susto e trabalha normalmente. E aqui se encerra o relato do delito.

Pirâmide desinvertida
O restante da matéria é composto por aquele lixo que os jornalistas do jornal curitibano costumam deixar para cobrir os espaços vagos pela ausência de anunciantes: o contraditório, o "outro lado". Porém, eis que aí, de onde nada se esperava, surge o único relato coerente do texto. A diretora do colégio tem finalmente voz e não nega que possa ter sido um aluno o incendiário, mas aventa a hipótese do ato ter sido praticado por algum invasor, já que os muros da instituição são muito baixos. Para ela, "quem fez isso escolheu um carro aleatório para praticar esse ato de vandalismo". Outra hipótese plausível.

A diretora conta que não há qualquer caso de agressão a professores registrado pela escola e que são poucos os casos de indisciplina ocorridos no ano. Quer dizer, exatamente o contrário do que dizia o título e as primeiras linhas do lead. E mais: o colégio está na lista de reformas do Núcleo Regional de Educação, o que inclui a elevação dos muros. E, assim, sem mais nem menos, tudo acaba bem. O que tinha começado terrível acaba com final quase feliz.

Não se sabe quem foi o suposto aluno delinqüente citado no título. Não se sabe nem se ele existe. No fim, percebe-se que pode ter sido qualquer um, qualquer pessoa, qualquer professor, qualquer aluno, inclusive a diretora, o professor bombeiro, a dona do carro ou o próprio jornalista. Não deve estar descartada a hipótese dos autores deste texto terem cometido o ato vândalo.

O texto nos mostra um caso típico de "pirâmide desinvertida", no qual o "outro lado" é muito mais completo e interessante do que o lead – o verdadeiro lixo que não precisaria ter sido escrito. Pelo menos, mais coerente e razoável. Ou a diretora tinha um texto pronto na cabeça, ou conhece a realidade da escola suficientemente para tornar o tema mais interessante e complexo, mais instigante do que a banalidade contida no lead. Este é composto pelos lugares-comuns, pelos fatos-ônibus "cresce a violência" ou "alunos são perigosos, quase delinqüentes" etc. Alunos do ensino público, diga-se.

Paradigmas e preconceitos
Para entender a confusão da matéria, há uma consideração de ordem teórica e de referência ética a ser feita. Maurice Mouilland, no excelente livro, que assina parcialmente, intitulado O Jornal – da forma ao sentido, mostra como um jornal é um espaço no qual há uma programação prévia do acontecimento. Em outras palavras, a imprensa cobre não o fato, mas o paradigma, um padrão de interpretação do acontecimento social.

Na matéria que abordamos, está posto de antemão que há uma guerra entre alunos e professores em Cascavel, que aqueles intimidam e agridem estes, e que, por isso, "só pode ter sido" um aluno o autor do delito. Pior: alunos da escola pública, supostamente pobres, pessoas que não estão nos colégios que preparam as elites, virtuais agressores, delinqüentes em potencial. Seria mais honesto se o jornalista iniciasse avisando que falaria de um tema ligado a uma certa gentalha...

Essa consideração abarca o campo teórico do jornalismo e também o campo da ética. Por um lado, problematiza a prática diária do repórter, que parece já sair de casa para ir ao jornal com a matéria que vai escrever pronta, mesmo sem saber qual fato a fundamentará. Por outro, denota haver uma idéia prévia sobre o que é o aluno da escola pública ou sobre o que é a escola pública. Afinal, como lembra a professora Cremilda Medina no seu clássico Notícia – um produto à venda: "Na realidade, o título sempre deixa transparecer a posição opinativa do grupo empresarial, mesmo aqueles que se dizem imparciais". E esse grupo já tem deixado claro que compreende a escola pública como muito mais passível de críticas ferozes do que de elogios ou de reconhecimento.

Birra indelével
Em nome de um suposto e mal definido compromisso com o bem público, a Gazeta do Povo pauta suas coberturas pela constante tragicidade das condições do ensino público no Paraná. Não reconhece qualquer iniciativa positiva das autoridades dessa área. Um exemplo, outro exemplo, esteve no mesmo dia 18, na tela da Rede Paranaense de Televisão (RPC), filiada ao mesmo grupo do jornal citado.

Uma determinação judicial para que a Secretaria de Educação do Estado conseguisse vagas para aproximadamente 200 alunos que haviam ficado fora da escola na cidade de Colombo – região metropolitana de Curitiba – teve repercussão em uma suíte que informava que nada havia sido feito até aquele momento. Omitiu-se que a sentença havia sido dada dois dias antes e que metade desses alunos já tinham sido identificados e, ao que tudo indica, alojados em salas de aula.

Trata-se, aparentemente, de uma birra indelével desses veículos com o governo do estado. Um constante estado de mau-humor que, dizem alguns, poderia ser delida com verbas publicitárias.

O fato é que, no intento de atingir o governo do estado, com a intenção de continuar essa briga boba e cega, o grupo Gazeta/RPC denigre não apenas a instituição Escola Pública, mas, principalmente, todos os alunos, professores e funcionários que a definem e que a constroem no cotidiano. Ao acusar irresponsavelmente um aluno por um suposto incêndio criminoso no carro de uma professora, o jornal coloca fogo em toda a escola. Levanta suspeitas infundadas, insufla a desconfiança, age com deslealdade, prejulga. Isso, sim, mais propriamente, pode ser chamado de violência. E coisas desse tipo, certamente não dão motivos para rir.

Por Luiz Geremias e Márcio Carvalho em 22/5/2007

A violência e o Pan

Quando tiver início o PAN 2007 aqui no Rio de Janeiro, eu espero que os atletas brasileiros tenham a consciência de que quando eles estiverem no alto do podium recebendo suas medalhas, sejam elas de ouro, prata ou bronze, essas estarão todas manchadas com o sangue de pessoas inocentes que estão sendo massacradas nos morros, favelas e periferias da Cidade maravilhosa. Parece que o poder público, que mais se parece com um poder paralelo, não ficou satisfeito apenas com o trabalho desenvolvido pelas milícias, apoiadas por ele próprio, -- fato este denunciado pela diretora-presidente do Instituto de Segurança Pública do Estado, Ana Paula Miranda, numa entrevista concedida para a edição nº: 119 desta revista – e resolveu usar o seu “direito” ao monopólio da violência com um desdém e um descaso pela vida humana que impressiona pelo grau de crueldade.

A polícia tem feito incursões nos morros e favelas de modo irresponsável e covarde, pois algumas dessas operações se iniciam por volta de 07:00 e 08:00hs da manhã. Até o mais imbecil, idiota e estúpido ser humano da face da Terra sabe que este é o horário em que a maioria das pessoas estão saindo, ou para trabalhar, ou para levar os seus filhos para a escola ou creche. E quando alguém é atingido nessas trocas de tiro, vemos o governador, o secretário de segurança, em suma, as autoridades (in)competentes, dizer que a polícia fez o seu trabalho corretamente, e que ela só reagiu porque foi recebida à tiros. Ora, quem tem a obrigação de zelar pela vida, a segurança e o bem-estar dos cidadãos é o poder constituído do Estado, e não o marginal; caso contrário este não seria marginal (aquele que está à margem da lei) e aquele não seria um poder legitimamente constituído. Opa! Será que eu decifrei o enigma?!

Somente no dia 06 de maio, cerca de treze pessoas foram feridas à tiro (uma delas de modo fatal) durante as operações da polícia, e, pasmem, não havia nenhum bandido entre as vítimas.O governador Sérgio Cabral declarou, durante uma entrevista à imprensa, que lamentava o ocorrido mas que não iria parar com essas ofensivas, pois não há outra maneira de se combater esses criminosos. Provavelmente, para o governador, a polícia só deve utilizar a inteligência quando os criminosos forem desembargadores, juízes, políticos, bicheiros, empresários, etc. . Apenas gostaria de informar ao governador, que nos morros e favelas não há indústria bélica, plantação de maconha ou produção de cocaína. Inclusive esta última tem, no éter, o seu principal produto para se obter o refino da coca, e eu não me lembro de ninguém que tenha pensado em exigir das indústrias farmacêuticas um controle rígido para a venda dessa substância. É por essas e outras que eu não posso deixar de lembrar do velho Marx quando este dizia já em 1847, no Manifesto do Partido Comunista, que o Estado nada mais é do que um comitê da burguesia, para satisfazer seus interesses econômicos, políticos e sociais, e assim, manter-se como classe dominante.

Esses movimentos e ONGs que se dizem “pela paz”, “da paz”, “contra a violência”, etc., ao invés de ficarem plantando rosas e colocando cruzes nas areias de Copacabana para contar os mortos, deveriam se juntar e propôr aos atletas e a população de um modo geral um verdadeiro boicote ao PAN 2007 e a tudo que se relacione com este evento. O seu custo financeiro (cerca de 2 bilhões de reais) bancado pelos cofres públicos, e, principalmente, o seu custo em vidas humanas – e não se trata só de mortos e feridos à bala, mas também de despejos de comunidades inteiras que moram à cerca de 20 à 30 anos no mesmo local, e que estão sendo retiradas de suas casas para melhorar o “visual” turístico do Rio – me parecem caros demais, independentemente de qual fosse o motivo. Como dizia o saudoso Dr. José Róiz numa frase que virou título de seu livro: “O esporte mata!”. E como mata!


por Renato Prata Biar
historiador.pratabiar@yahoo.com.br.
Retirado do Informativo Caros Amigos nº 293, de 14 de junho de 2007.

Bem-vindo ao deserto do real

A prisão do apresentador de TV Ricardo Chab – quando extorquia empresários da empresa de segurança Centronic – é emblemática para entender como funcionam os programas jornalísticos – não é possível dizer que todos, mas pelo menos boa parte deles. Chab apresenta o programa Na Hora do Almoço, transmitido pela RIC, afiliada curitibana da TV Record, e se dedica basicamente a fazer denúncias. Para impedir que uma dessas denúncias fosse ao ar, ele teria tentado faturar 70 mil reais.

Tudo indica que Assis Chateaubriand, o dono dos Diários Associados, fazia isso. Em sua biografia (Chatô, o rei do Brasil), escrita por Fernando Morais, há o registro de um episódio no qual uma empresa de fósforos anunciava haver 40 palitos em cada caixa, mas, em um exame detalhado, se descobria haver geralmente menos do que isso. Chatô teria telefonado para o empresário e resolvido não fazer a denúncia do engodo em troca de certas vantagens. E as empresas de fósforos passaram a cunhar nas caixinhas: "Contém, em média, 40 palitos", além de anunciar nos Diários Associados, é claro.

Parece difícil separar o jornalismo dessas práticas. Todos sabem que a divulgação de uma denúncia é geralmente acompanhada por um tom acusatório, um julgamento que não admite defesa por parte do acusado. Mesmo que lhe seja reservado um espaço para a sua versão, esta ganha, de modo geral, menor ênfase. É prática corrente na imprensa a acusação sem provas, sem contexto e sem responsabilidade. Vide o famoso caso da Escola Base e que se preste atenção a este, que vem se desenhando, relativo à menina Isabella Nardoni.

"Vícios privados, virtudes públicas"
Essa prática se assemelha àquela que sabemos ter existido nos tempos da Lei Seca estadunidense e que vemos em filmes que retratam a época: em um restaurante, subitamente, entram dois ou três homens armados com metralhadoras e executam a vítima. Ao "outro lado" nesses casos, como ocorre na imprensa, cabe aceitar a saraivada de balas/acusações calado ou, no máximo, esboçar um gemido. Não há defesa.

Diante dessa situação, cabe à vítima tentar impedir o estrago. E todos sabem como isso pode ser feito: o cala-boca é geralmente conseguido com cédulas impressas pela Casa da Moeda.

Cabe indignação? Ora, francamente. Indignar-se com o quê? Com essas práticas que são corriqueiras? Como já disse Jean Baudrillard, essa indignação, muito sentida pela pequena-burguesia, leva em conta que as coisas poderiam ser diferentes. Na verdade, essas práticas são parte do grande jogo proposto por uma sociedade que combate o crime apenas nas aparências, mas se alimenta dele, como está bem ilustrado na fábula da colméia escrita por Bernard de Mandeville há mais de 200 anos: as abelhas viviam segundo a máxima liberal dos "vícios privados, virtudes públicas". A indignação leva apenas ao reforço da ilusão de que aquilo que faz a sociedade ocidental ser o que é poderia ser diferente. Se assim o fosse, teríamos que falar de outra sociedade.

E a ética?
Ricardo Chab parece ser apenas mais um dos que usam o jornalismo para encher os bolsos. Faz o que todos fazem. Um empresário usa seus produtos para tirar dinheiro do consumidor e só um tolo pode afirmar que nunca os adultera nem usa de práticas escusas para conseguir seu intento. Eu mesmo já fui vítima, inúmeras vezes, da "maloqueiragem" empresarial. Como no caso das metralhadoras, não me restou muita coisa senão aceitar, não sem gemer, a gatunagem. Do contrário, teria que contratar advogado, gastar não pouco tempo em audiências, enfrentar os advogados contratados pelos empresários etc., sem qualquer perspectiva de sucesso.

Cá para nós, esse é o real que o discurso da sociedade capitalista tenta esconder todo o tempo. Um real desértico, triste, fétido e que não nos oferece muitas esperanças. O caso de Chab não é isolado, muito menos o de qualquer jornalista que assim aja. Tudo indica que essa é a regra. E cabe perguntar onde está a ética que, um dia, Adam Smith julgou que deveria governar as relações econômicas.

Por Luiz Geremias em 29/4/2008

As TVs do Paraná e a imprensa surrealista

Há coisas, na política e na imprensa, que chamam a atenção pelo caráter um tanto surreal. Há quem diga que se trata não de surrealismo, mas de parcialidade ou ausência completa de objetividade. Mas prefiro crer que os jornalistas e colunistas envolvidos no fato que vou narrar não sejam desonestos, nem estejam maculando premeditadamente as regras sagradas do jornalismo. Tendo à estupefação, não à acusação. Pois bem, vamos aos fatos.

A Secretaria de Educação do Paraná comprou, no final de 2006, por licitação, mais de vinte mil aparelhos de televisão para serem instalados nas salas de aulas de suas escolas. São televisores de 29", tela plana, com algumas especificidades: entrada USB para leitura de pen drive e de cartão de memória, capacidade de projetar imagens congeladas sem distorção, dispositivos de segurança etc. A proposta é que os professores possam gravar aulas em forma de filmes, slides, aproveitando imagens coletadas na internet etc. Para isso, os mestres recebem, cada um, um pen drive. Outros governos também estão tomando a mesma iniciativa.

Os aparelhos foram comprados a R$ 860,00 a unidade. Na época, houve um grande questionamento acerca do preço, alegava-se que havia no mercado aparelhos mais baratos.

Licitação questionada
Apurei, após consulta, que as empresas que vendem esse tipo de produto não possuíam em estoque semelhante aparelho. Tive o cuidado de ir a uma dúzia de lojas – pois se dizia que em qualquer uma se achariam televisores mais em conta – e telefonar para algumas empresas. Os preços fornecidos variaram de R$ 1.250,00 a R$ 1.500,00, por conta do custo da adaptação do aparelho, diziam os vendedores. Nas lojas, o televisor mais barato de 29" e tela plana que encontrei custava algo em torno de R$900,00, sem as tecnologias citadas. Não possuo mais a documentação das consultas, mas o preço nas lojas pode ser verificado nos jornais da época. A garantia oferecida era sempre a tradicional, de um ano.

Então, não parece ter havido superfaturamento, pelo menos levando em conta os argumentos dos que questionavam o negócio. Minha apuração forneceu esse indício. Qualquer um poderia ter apurado isso e tenho certeza de que muitos jornalistas e políticos o fizeram.

Houve também o questionamento sobre a licitação. Ocorre que a empresa que vendeu os aparelhos foi uma das principais contribuintes para a campanha de reeleição do atual governador. Ninguém, porém, conseguiu consubstanciar a acusação de favorecimento. Nada ainda foi provado e, nunca é demais lembrar que, financiadora de campanha ou não, a tal empresa vendeu por um preço baixo o televisor.

Denúncia furada
Tudo indica que foi um bom negócio, realizado há pouco mais de um ano, mas foi fechado por um governo com uma empresa que o apoiou na campanha. A oposição se assanhou e, desde então, vem tentando descobrir algum indício de irregularidade. Como já foi dito, ninguém foi capaz disso até o momento. No entanto, bem que se tenta, ainda que de forma atabalhoada.

Há aproximadamente um mês, quase um ano após a compra, um deputado, líder da oposição, vai à internet e consegue comprar um aparelho semelhante por um preço menor: R$749,00. Isso levou os oposicionistas, incluindo alguns jornais e jornalistas, à loucura: estaria provado o superfaturamento.


Novamente fui apurar os fatos. Acessei o mesmo sítio de vendas no qual foi comprada a televisão e constatei o menor preço. No entanto, me chamou a atenção a garantia oferecida: a tradicional, de um ano. O governo havia, pouco antes, explicado que a garantia oferecida para seus televisores era de três anos. Verifiquei o quanto isso alteraria o preço: de R$749,00, saltava para R$1.030,70. Recorri também a anúncios de televisores de tela plana de 29": em dezembro de 2007, já se conseguia comprar um aparelho desses, simples, sem os acessórios tecnológicos dos televisores comprados pelo governo, por pouco mais de R$600,00, os mesmos que custavam R$900,00 um ano antes. Uma desvalorização de algo em torno de 30%, que atinge todos os aparelhos eletrônicos. Se tomarmos o preço de R$1.030,70 e aplicarmos esse percentual de desvalorização desses produtos, teremos o preço de R$1.339,91, que está na faixa do encontrado em minha apuração de um ano atrás.

Qualquer um poderia ter se dado a esse trabalho básico de apurar o fato e, novamente, tenho certeza de que muitos políticos e jornalistas o fizeram. Uma matéria do jornal O Estado do Paraná, publicada no dia 18 de dezembro, corrobora esta minha convicção. Lá está escrito: "O líder da oposição sustentou que seu aparelho também tem três anos de garantia. Mas uma consulta ao site feita por O Estado mostrou que o valor de R$ 749 garante o produto por um ano. Ao ampliar o prazo para três anos, o preço do produto é alterado para o valor apontado pelo líder do governo (R$1.030,70)." O jornalista apurou e constatou o fato que mostra que é difícil levar a sério uma denúncia posta nestes termos. Parabéns a ele, ou a ela. Fez bem o seu trabalho.

O leitor não é bobo
Causa estupefação o fato de que o mesmo jornal cujo jornalista apurou a improcedência da denúncia afirma, desde então, diariamente, em sua coluna política, que o deputado haveria comprado uma TV mais barata, o que comprovaria o superfaturamento, sem qualquer dado novo além do fornecido pela denúncia manca. Surrealismo, puro delírio ou a má-fé contida na expectativa de que uma mentira, repetida várias vezes, se torne verdade?

Apurar um fato é simples. Nem sempre é fácil, mas o princípio é simples: há que se checar a procedência de uma afirmação, uma denúncia ou uma explicação para um determinado acontecimento. O jornalista do Estado do Paraná apurou e publicou o resultado de sua apuração. Aparentemente, o colunista político não leu o próprio jornal e não apurou nada. Se fosse somente ele a agir assim, tudo bem, mas há outros, de renome na imprensa local, que demonstram o mesmo proceder.

Alguns leitores podem ser bobos, mas não todos. Tratar um fato como o exposto acima da forma tosca como vem sendo feito, é algo que não pode ser levado muito a sério. Parece uma negação delirante da realidade, como a do deputado que afirmou que a TV que comprara tinha a tal garantia de três anos, fato desmentido pela matéria do Estado do Paraná e por qualquer um que apurasse a notícia.

Transgressão da verdade
A imprensa tem um papel fundamental no regime democrático. Serve para que o cidadão fiscalize o poder público. Repercutir denúncias é fundamental. No entanto, há que se considerar, em primeiro lugar, os fatos. Suspeitas devem ser tratadas como suspeitas, não como verdades comprovadas e, quando desmentidas, devem ser tratadas como inverdades. Inverter essa lógica é, no mínimo, surrealismo.

Consultando o dicionário do mestre Antônio Houaiss, constato que surreal é algo que "denota estranheza, transgressão da verdade sensível, da razão, ou que pertence ao domínio do sonho, da imaginação, do absurdo". Ora, haverá melhor explicação para a transgressão da verdade do que negar os fatos? Pode haver, sim. Mas nos remeteria à "ação maldosa, conscientemente praticada; deslealdade, fraude, perfídia", ou seja, segundo o mesmo Houaiss, à má-fé. No entanto, prefiro a hipótese surrealista. Ela admite a esperança de que, passado o surto, se restabeleça o bom senso.

Por Luiz Geremias em 15/1/2008

O jornalismo fiel ao dono

A revista Veja tem dado bons exemplos daquilo que é mais criticável no jornalismo. Além de ter descambado definitivamente para a telenovelização da notícia, dá mostras de como funciona o jornalismo subserviente aos interesses da empresa que o controla.

A notícia parece vir pronta, independendo de qualquer apuração, de acordo com o interesse do patrão: quando o dono determina, abana o rabo e lambe os pés de qualquer um, como um doce poodle. Da mesma forma, a um sinal, vira pitbull.

A sorte é que esse tipo de prática jornalística é nocivo apenas para um certo tipo de leitor. É o caso daquele cara que sai por aí repetindo, ipsis literis, idéias prontas, como se fossem suas. O mesmo que Curtis White diz ser portador de uma "mente mediana", o "indivíduo medíocre" de que nos falava Jose Inginieros há muito tempo. Ou, para H. L. Mencken, o "homem inferior" que sustenta a lucratividade da grande imprensa. Aquele que deve ser assustado e depois tranqüilizado para se manter presa desse discurso midiático: "Primeiro, amedronte-o com um bicho-tutu e corra para salvá-lo, usando um cassetete de jornal para matar o monstro", ensinava Mencken.

Pensadores orgânicos
Vejamos que veículos como a Veja parecem ter o interesse de paralisar a capacidade crítica de seus leitores, de mantê-los na mediocridade intelectual, disseminando sua moral subserviente. Uma das estratégias para isso é a simulação de adesão a um ideário sócio-político.

O leitor acaba iludido em um pastiche ideológico. Pensa estar repetindo um discurso fundamentado acerca da realidade, quando na verdade está professando lugares-comuns vagos, criados apenas para desviar a atenção dos reais interesses dos financiadores desse tipo de jornalismo.

Para realizar essa tarefa, a Veja conta com seus "intelectuais orgânicos", aqueles que são liberados a dar suas opiniões e incentivados a tecer comentários inteligentes. Os que assinam em baixo do que escrevem e assumem a autoria de seus pensamentos. Para essa forma de jornalismo, que parece se resumir ao objetivo de satisfazer interesses empresariais, esses pensadores orgânicos são fundamentais. São eles que falam pessoalmente ao leitor e simulam a adesão a um discurso sócio-político. São os colunistas, que hoje ganharam espaço privilegiado com os chamados blogs.

Mente mediana
A revista Veja tem um time de colunistas-blogueiros. Um deles, Diogo Mainardi, parece já ter conseguido se estabelecer como uma personalidade folclórica do ideário costumeiramente chamado de "reacionário" ou "de direita", uma espécie de discípulo de Olavo de Carvalho. Outro é Reinaldo Azevedo, que, tudo indica, provavelmente aprendeu muito com Francis Fukuyama e sua eternização do liberalismo econômico pela noção simplória do "fim da história". Tudo o que não diz respeito ao pensamento único do capital é execrável ou, pior, démodé.

O governo Lula, por exemplo, é execrado pelos dois. Porém, o que é importante não é isso. Pouco importa se odeiam o presidente ex-metalúrgico ou não, pois isso parece depender de ordens superiores. Menos ainda importa o conteúdo de seus comentários. Tudo indica que são compostos de frases feitas, de idéias prontas e fatos ocultos, fidelíssimos no intuito de manter o patrão de bom humor.

O colunista-blogueiro Reinaldo Azevedo, no último dia 18 de setembro, publicou um texto ultrajado no qual condenava explicitamente a citação do pensamento de Karl Marx no livro didático público criado e distribuído pelo governo paranaense aos alunos do nível médio. Marx, todos concordarão – menos Azevedo e alguns portadores da "mente mediana" – é um teórico consagrado, cujo pensamento merece sempre ser revisitado, mesmo pelos que o entendem criticamente.

Assédio aos professores
O alvo era o livro didático público paranaense de Educação Física, no qual um texto sugere aos alunos que refletissem sobre se o esporte não poderia estar sendo tratado como mercadoria na contemporaneidade. Nada mais salutar, pois essa é uma concepção corrente entre os estudos sociais contemporâneos que entendem que isso acontece não apenas com o esporte. Para Azevedo, porém, isso corresponderia a atacar o caráter competitivo do esporte e doutrinar as crianças para a subversão. Trágico para ele, cômico para nós.

O mais tragicômico é descobrir que, lendo o livro, se percebe que há, isso sim, o interesse de incitar o aluno a pesquisar e pensar sobre a suposta natureza competitiva humana. Isso, porém, para Azevedo, é quase um crime.

Após ler o texto do blogueiro anti-Marx, me pus a pensar sobre o caso. Entendi que sua gana deve ter relação com o fato da revista Veja ser publicada pela Editora Abril, que é proprietária das editoras Ática e Scipione, ambas especializadas em livros didáticos e que, graças à portaria 2.963/05 do Ministério da Educação, vêm amargando prejuízos e odiando ardentemente o governo Lula. Provavelmente, se os negócios andassem melhores, o amariam. Bastaria que o ministro Fernando Haddad permitisse que continuasse a prática de assédio aos professores por parte dos representantes das editoras da Abril, cessada pela portaria.

As crianças e o marxismo
Lembro, ainda, que a Abril e seus veículos têm por hábito bombardear as editoras concorrentes nesse ramo, havendo o prestimoso exemplo de uma recente campanha movida contra a Editora Nova Geração, de propriedade de Domingo Alzugaray, ex-diretor da revista IstoÉ. O problema está no fato de que o governo federal haveria comprado da Nova Geração, após consulta a docentes, 3,5 milhões de livros didáticos para estudantes e aproximadamente 60 mil livros para professores. Isso, com certeza, deixou fulo o pessoal da Abril.

Ficaram tão coléricos que o citado blogueiro, ao se referir ao livro Nova História Crítica, perde o prumo e chega a pedir, emocionado, que protejamos nossas crianças do "molestamento ideológico". É claro que ele pode pensar e dizer o que bem entender, mas que é engraçado, ah, isso é.

Não é difícil supor de onde vem o furor "direitista" em relação ao livro da Nova Geração. Também não é de se estranhar como surge o mau humor em relação ao livro didático público paranaense, ainda mais quando se sabe que tudo o que os blogueiros publicam deve receber o carimbo de "ok" do patrão.

Ao editar e distribuir seus próprios livros, o governo do Paraná entra no rol dos concorrentes diretos da Abril. Fecha às editoras Ática e Scipione um rendoso mercado. Se isso for levado em conta, está explicada de forma bem convincente a raiva em relação ao livro que põe em xeque a lógica da concorrência como valor supremo. Parece estar mais uma vez desmascarada a simulação de pensamento da revista e seus colunistas. O que estaria em jogo seria simplesmente atacar a concorrência, nada de discordâncias teórico-políticas fundamentadas, muito menos preocupações com as pobres crianças doutrinadas para o marxismo.

Autismo tautológico
Não parece haver qualquer pensamento político aí. Parece haver, isso sim, uma cortina de idéias prontas, tecida para ocultar outros interesses e, infelizmente, desviar a atenção do leitor mediano da verdadeira lógica que comanda a produção de notícias das grandes corporações da mídia. Diziam os marxistas Theodor Adorno e Max Horkheimer: empresas não têm ideologia, têm negócios.

Mais uma vez, vemos ilustrada a velha máxima que determina que a diferença entre os partidários da esquerda e da direita está na seguinte definição: os da esquerda são militantes, lutam por propostas e ideais e estudam até os estéreis textos capitalísticos; os da direita são sócios, parecem lutar apenas para encher os bolsos e, com certeza, não podem sequer ouvir falar de Marx. Nenhum problema nisso, mas é preciso informar ao leitor o que se passa e como se passa.

O leitor mediano acaba iludido. Ao pensar que o que lê nos colunistas blogueiros de Veja é fruto de uma reflexão teórico-política, construída graças a uma boa educação teórica, pode estar sendo induzido a um erro e sair por aí repetindo o pensamento ready made que, na verdade, se contextualizado, é facilmente desmascarado.

Uma abordagem conhecida sobre a comunicação humana a difere da usada pelos cães por esta ser egocêntrica, ou seja, voltada para si. Quando um cão late, segundo essa teoria, não sabe se seu latido tem algum significado para outro cão. Se este outro cão responde, é apenas porque foi estimulado pelo latido, não porque tenha "algo a dizer" ao primeiro cão. Se este é o mecanismo que rege a comunicação canina, muito provavelmente deve ser, também, a lógica desse jornalismo fiel ao dono: uma espécie de autismo tautológico nos moldes do já estudado por Lucien Sfez. Quem perde, como dito, é o leitor, que deveria ser encarado como o verdadeiro dono do veículo.


Por Luiz Geremias em 2/10/2007

Os novos senhores feudais

As grandes empresas de comunicação têm sido articuladoras daquilo que Jürgen Habermas chama de “refeudalização da esfera pública”. A semiótica comunicacional que observamos hoje faz reviver o tempo em que o senhor feudal tinha o poder de definir o que estava certo ou errado, sem contestação. Assim como os nobres castelães, o empresário de comunicação está dotado de um status que lhe confere uma inequívoca transcendentalidade.

Os meios de comunicação trabalham no plano do consenso simbólico: a versão da mídia é, no fim das contas, a verdade reconhecida por aquilo que Pissarra Esteves chama de Opinião Pública, um conjunto de indivíduos – próximos fisicamente, mas distantes espiritualmente – que utiliza os meios de comunicação de massa como base de orientação subjetiva. Os telejornais e o entretenimento cultural são a principal referência simbólica que essas pessoas utilizam para decodificar e estruturar a noção de realidade.

Isso é terrível se pensarmos que os meios de comunicação funcionam como máquinas de produção de significados mecânicos, programadas para capturar o deslizamento dos significantes em circuitos fechados: ou seja, não deve haver dissenso, logo não se tolera a criatividade nem qualquer singularidade. Essa lógica se contrapõe ao que Habermas refere como a esfera pública, um sistema de discussão crítica levada a termo por indivíduos, não para gerar o consenso transcendental do status, mas para que se possa gerir o bem comum sob a égide da razão. Nesse caso, deve valer a verdade, não a autoridade.

No caso da sociedade contemporânea, porém, é preciso inverter a equação: vale a autoridade, não a verdade. E essa verdade autoritária está posta nas páginas dos jornais, nas ondas do rádio, nas imagens da televisão e nos mais respeitáveis sítios noticiosos da internet. São os novos senhores feudais que a definem e os vassalos que formam a tal Opinião Pública servem apenas e tão somente como meios de difusão dessas verdades simbolicamente consensuais.


Luiz Geremias, junho de 2008