25 de maio de 2009

Céu de Faxinal do Céu

Foto Luiz Geremias

Crepúsculo em Arapongas

Foto Luiz Geremias

Apelo à inteligência

Lemos, todos os dias, sobre a violência urbana e o crime organizado, notadamente nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. As matérias são densas e relatam os horrores e atrocidades cometidas por criminosos organizados. Os editoriais exaltados acusam o poder público de inoperância e há articulistas que fazem as duas coisas, além de conclamar os cidadãos para o apoio a medidas repressivas mais eficazes. Uma das propostas que ganha unanimidade entre todas as vozes é a do aprimoramento da inteligência policial. Para todos, faltam investimentos no aprimoramento do serviço de inteligência da polícia.

Há, porém, os que lembram das atrocidades a que é submetida a população pobre. Há também os que referem que o poder público realmente falha, mas por somente estar presente nas comunidades pobres apenas com sua força policial, não oferecendo educação, saúde ou perspectivas de melhoria das condições de vida. E há os que lembram que, assim, mais medidas repressivas só tendem a piorar o quadro. Não podemos esquecer os simplórios para os quais a solução é exterminar todos os bandidos – e, em 2004, tive informações de fonte confiável de que alguns militares chegaram a esboçar uma operação para o assassinato de um bom número de “lideranças do tráfico” – ou, na margem oposta, os que insistem em considerar pessoas que incendeiam pessoas como singelas “vítimas da sociedade”. Todos, com certeza, não se oporão ao argumento de que a segurança pública carece de um serviço de inteligência, nem muito menos o autor deste texto. Mas, há algumas ponderações a fazer.

Uma guerra secular
As condições para a formação do chamado banditismo urbano e suas quadrilhas estão dadas e não há qualquer sinal de que sejam minoradas ou refeitas. Isso não vem de agora, ou de uma ou duas décadas atrás, conforme às vezes se tenta dizer. Temos que levar em consideração muito tempo de discriminação e de criação das feras que incendeiam ônibus com gente dentro. Os jornais falam em “guerra” e, com um pouco de pesquisa e um mínimo de bom senso, podemos entender que há uma guerra posta há pelo menos algumas centenas de anos. Guerra que se acirrou nos últimos cem anos. Não exatamente a guerra de que os jornais falam, que opõe bandidos e “cidadãos de bem”, os tais “bons” silenciosos de que tanto se fala. No máximo se fala de um estágio dela.

A guerra original, o conflito que serve hoje de pano de fundo para as atrocidades é exatamente a dos “cidadãos de bem” contra os pobres. A história do Rio de Janeiro, por exemplo, é ilustrativa e estudá-la pode ser muito útil para entender o porquê de tanto banditismo e tanto desprezo pela vida demonstrado pelos “terroristas” cariocas. A adesão ao crime por parte de uma parte dos moradores de favelas e periferias, tem lá sua lógica e só um parvo não percebe isso e exige mais repressão. Essas pessoas estão apenas mostrando que aprenderam bem uma determinada lição. Acima de tudo, não são vítimas inocentes.

No entanto, esse é apenas um dos vetores do problema. Não o esgota. Saber que os “cidadãos de bem” ajudaram a alimentar o ódio dos que hoje se tornaram bandidos é fundamental, mas não basta. Como alguns lembram, há pelo menos cem anos os pobres, principalmente os de pele escura, são tratados como animais, só recebem atenção do estado através dos cassetetes e das armas da polícia. Devem, para escapar das bordoadas e tiros, ficar quietos, não circular em “áreas nobres” e aceitar os magros vencimentos oferecidos por empresas e casas de família, além de muita humilhação. Uma boa forma de entender como os “bons silenciosos” tratam essa gente é ver como são as tais “dependências de empregada” dos apartamentos da zona sul carioca, como lembra Hélio Santos: um cubículo no qual mal se pode entrar e que dá vista para o tanque e a máquina de lavar. Essa gente deveria saber qual é o seu lugar. De alguma forma, uma das mensagens transmitidas pelos bandidos – e não ver isso é burrice ou má-fé – é de que esse lugar não mais lhes satisfaz. Mas, isso ainda não é o mais importante.

Outro nome para “quadrilha”
Um bom caminho para pensar com radicalidade a questão é assistir ao filme “The Corporation”, assinado por Mark Achbar, Jennifer Abbott e Joel Bakan, de 2004, e inspirado no livro de Joel Bakan intitulado “The Corporation: the pathological pursuit of profit and power”, do mesmo ano. Trata-se de uma produção que se dedica a mostrar o óbvio: o que hoje se chama “corporação”, ou “grande empresa”, no português coloquial, é uma entidade que se assemelha demasiadamente ao que os “bons”, quando não estão silenciosos, chamam de “quadrilha”.

Entender isso é muito útil para desvendar o problema da violência urbana. Simplesmente porque se pode compreender que o que está acontecendo hoje é a vitória da lógica corporativa, que serviu de inspiração para transformar uma entidade criada para, especificamente, proteger detentos de outros detentos e da truculência de carcereiros, o famigerado Comando Vermelho, em uma lucrativa empresa criminosa. Basta ver, no filme, a utilíssima definição do categoria mórbida psiquiátrica intitulada Distúrbio de Comportamento, vulgo Psicopatia, para esclarecer as coisas e perceber que se enquadrar nessa definição não é apenas apanágio de traficantes ou bandidos diversos.

Em linhas gerais, o psicopata se caracteriza por: a) insensibilidade em relação aos sentimentos de outrem; b) incapacidade de manter relações duradouras; c) insensibilidade em relação à segurança de outras pessoas; d) hábito de mentir e atribuir a outros a responsabilidade por seus maus atos; e) incapacidade de experimentar culpa; f) inaptidão para se conformar a normas sociais e à legalidade. Pois o filme demonstra, de forma direta e simples, o que podemos perceber no “mundo real”: a corporação, a empresa, se enquadra, em suas práticas, em todas essas características. E, da mesma forma, os governos que agem conforme seus ditames.

A sociedade das corporações, a sociedade que cada vez mais segue o padrão de comportamento psicopático demonstrado pelas grandes empresas, não pode ser muito diferente do que é. Podemos, por exemplo, perguntar: qual a diferença entre quem dá um tiro ou incendeia um ônibus com gente dentro e quem envenena o ambiente ou organismos ou quem lesa populações inteiras obtendo favores de governos corruptos? É claro que há diferença. Quem leva o tiro ou é queimado vivo morre muito mais rápido. Da mesma forma, como lembrou Wright-Mills, a diferença entre o ladrão pobre e o ladrão rico é que aquele exerce seu ofício com violência e obtém ganhos parcos, mas imediatos, enquanto este faz tudo suavemente e a longo prazo, obtendo ganhos bem maiores. Há, assim, uma grande identidade entre o que os jornais chamam de quadrilhas e o que costumamos chamar de corporações, assim como há uma inequívoca semelhança entre o que os psiquiatras chamam de psicopatia e o que alguns chamam “mentalidade empresarial”.

Falta inteligência, assim, para descobrir que a sociedade ocidental, cada vez mais dominada pelos interesses das grandes empresas, é uma sociedade que insufla o crime, premia o criminoso e incentiva todo e qualquer mortal que pretenda entrar no seu jogo a descartar qualquer consideração pelo semelhante, tudo em nome do ganho, da vitória, do lucro. Não pode dar noutra coisa... E, convenhamos, a inteligência policial, como a conhecemos, não pode fazer muito nesse caso. A não ser que passe a voltar suas atenções para longe das favelas e periferias. Até quando se vai fingir não saber que o mercado financeiro é um dos maiores interessados no tráfico de drogas, pois esse “negócio” movimenta aproximadamente US$ 500bi/ano? Adivinhe onde circula boa parte dessa grana?

Apenas seguindo “bons exemplos”
Podemos dizer que não há muito como negar esses fatos. Não há como esquecer disso se a intenção for realmente entender a dita “violência urbana”. A dita grande imprensa, por sua suposta posição de poder destacado de interesses diretamente políticos e por seu suposto compromisso como serviço público, deveria ter um papel importante na função de decodificar a complexidade do quadro e permitir a formação de uma consciência cidadã. No entanto, essa posição e esse compromisso são, como dito, apenas supostos. A imprensa de maior circulação e, por conseguinte, de maior peso na formação da consciência, é formada e alimentada por grandes empresas. E, assim, não consegue ver, ou não quer ver, que não há saídas viáveis para o grave problema da criminalidade, a não ser que se refaça a lógica predominante em nossa sociedade: a lógica psicopática, a lógica do desrespeito ao outro, a lógica corporativa. E se essa tarefa já seria difícil com a participação da grande imprensa, imagine sem ela.

Infelizmente, tem nos restado a trágica posição de assistir às atrocidades dos bandidos e dos “líderes corporativos” sendo exibida como show nos telejornais. Para sair desse impasse, é fundamental deixar de lado os lugares comuns e aprofundar a discussão. Não adianta apontar o traficante de drogas das favelas e periferias, ou tais e quais milícias disto ou daquilo, como responsáveis ou culpados pela tragédia. Eles estão apenas seguindo os “bons exemplos” dados por quem “se deu bem” na vida. Mesmo que para “se dar bem” seja necessário lesar seja lá quem quer que seja. Essa é a regra do jogo, o jogo proposto pela mentalidade empresarial e aceito por quase todos nesta sociedade, incluindo os tais “cidadãos de bem” a quem a imprensa exorta à indignação. Falta inteligência, principalmente para descobrir aonde dirigir a indignação.

Uma polícia inteligente, nos mostra gente interada no assunto como o francês Dominique Monjardet, Lawrence Sherman, do Crime Control Institute dos Estados Unidos e o nosso conterrâneo Luiz Eduardo Soares, seria aquela que caminharia na direção do núcleo da organização criminosa. Utilizando uma metáfora médica, teria como foco atacar ostensivamente o núcleo canceroso do chamado crime organizado, que descobria os líderes de modo a ter provas consistentes para incriminá-los. Cortado o mal pela raiz, as metástases perderiam força e a atividade criminosa definharia. Que tal levar isso a sério e enviar a Força de Segurança Nacional para endereços mais nobres do que os encontráveis em qualquer favela ou periferia? Fica, aqui, um apelo à inteligência.

Luiz Geremias - maio de 2007

Alvorada em Santa Quitéria

Foto de Luiz Geremias

21 de maio de 2009

Quem se importa com a Opinião Pública?

O ideal é um parâmetro de avaliação da realidade. Através de um ideal, uma abstração que fala de um estado de perfeição, é possível avaliar a distância entre o que percebemos na realidade e o que de melhor poderemos almejar para modificá-la. No entanto, se o ideal substitui a percepção da realidade, é possível falar de um distúrbio de pensamento, pois o ideal é, por natureza, imaginário. Nos casos em que há confusão acerca disso, perde-se a noção daquilo que Sigmund Freud chamou de “princípio de realidade” e, assim, ocorre o que podemos nomear como alienação, uma situação na qual o indivíduo não tem a noção do que ocorre consigo mesmo, deixando, assim, de ter a capacidade de governar a própria vida.

A alienação não é, porém, um “privilégio” do indivíduo. São inúmeros os exemplos históricos de imposição de uma idealização em detrimento da realidade. Em nome de um ideal étnico, a Alemanha do Terceiro Reich engendrou o plano da Solução Final, resultando no extermínio de milhões de seres humanos. Segundo Zygmunt Bauman, pela busca da pureza de um tipo de consumidor ideal, as sociedades de consumo contemporâneas condenam outros tantos à execração pública, impedindo-os de frequentar determinados locais e tratando-os como pessoas de segunda categoria.

Substituir o real pelo ideal remete à proposta de estabelecimento de uma verdade única e inquestionável. Se isso é feito inconscientemente, falamos de psicose; se deliberadamente, de má-fé. Em ambos os casos, quem o faz demonstra arrogância. Ora, a realidade é sempre plural, dotada de múltiplos sentidos e versões, e é preciso muita humildade para tentar entendê-la. A verdade, por sua vez, é uma versão consensual construída por um grupo social, mas depende de discussões, de debates e embates de ideias e ideais. Todo e qualquer consenso é momentâneo e conjuntural. Em outro momento, em uma conjuntura diversa, será preciso agregar novas ponderações para reformular a postulação tida como verdadeira em oportunidades anteriores.

Público sem opinião
Se não há espaço para o debate, a verdade se afigura como ilusoriamente permanente, o que significa que é uma imposição artificial de um indivíduo sobre outros ou de um grupo sobre outros. Politicamente, essa injunção pode se dar pela força física ou pela sedução subjetiva. No primeiro caso, temos, como bom exemplo, as ditaduras estatais, no segundo, as ditaduras midiáticas, que podemos observar na contemporaneidade, voltadas para aquilo que se convencionou chamar de Opinião Pública.

A chamada Opinião Pública, segundo João Pissarra Esteves, pode ser compreendida como a cultura de pessoas isoladas não fisicamente, mas espiritualmente. Apesar de juntas, essas pessoas se sentem geralmente sós e se integram não pela reflexão ou pelo debate de questões coletivas – quando poderia receber o nome de Esfera Pública, como diria Jürgen Habermas – mas pela sujeição aos dispositivos difundidos pela mídia e patrocinados por empresas, e todo veículo de comunicação é, ele mesmo, uma empresa que, em tese, tem interesses comerciais que tendem a fazer vigorar uma “opinião privada”. Não se pode, nesse caso, falar em identidade, mas em identificação, ou seja, cada pessoa se liga às demais e ao conjunto da sociedade pela absorção de ideais sobre os quais não refletiu – geralmente modelos pré-moldados de pensamento e comportamento. Não é demais falar, nesse caso, que a Opinião Pública é o nome de fantasia de um público sem opinião que “pensa” quase que unicamente com as mensagens midiáticas.

O leviatã midiático
A prática comunicativa que governa esse processo é conhecida como perlocução – a transmissão de mensagens de modo a conseguir, prioritariamente, um efeito persuasivo. A comunicação perlocutória trabalha no sentido de exercer um efeito emocionalmente envolvente que subtrai do indivíduo o senso crítico e a capacidade de formulação subjetiva. Nesse caso, pela identificação, há uma simulação identitária na qual não existe individualidade ou mesmo subjetividade, no sentido estrito do termo.

A mensagem perlocutória da mídia tem, via de regra, o objetivo de incutir o temor de modo a que a pessoa tenda a aderir ao modelo ideal para buscar segurança. Forma-se uma subjetividade impotente na qual o sujeito clama por uma ordem que o livre do caos e, ironicamente, da impotência, quando, na verdade, está mergulhando voluntariamente num estado de estupor e de alienação. Esse mecanismo perverso de articulação subjetiva funciona nos moldes hobbesianos e a mídia contemporânea pode ser entendida como um leviatã: oferece, através de um modelo metafísico fechado em si, uma falsa segurança que se funda na ameaça de eclosão de um “estado natural” de desordem.

O indivíduo aceita trocar o real pelo ideal de modo a manter sua liberdade, mas está, de forma evidente, abrindo mão dela, pois teme o caos que lhe vendem como ameaça – e o caos é a outra face do ideal: este se sustenta pelo suposto risco de queda naquele. Usualmente, o nome dado ao caos nos noticiários é “crise”, sendo que, segundo muitos jornais e telejornais, vivemos em crise. Às vezes, no caso de certas manifestações populares, o nome é “baderna”.

Quem se importa?
Com a manipulação de um modelo ideal de abordagem do real, o leviatã midiático produz o simulacro da dissolução das diferenças e promete o nirvana do fim dos conflitos pela adesão a um esquema universal de pensamento que trabalha com a distinção fictícia, idealizada, do Bem contra o Mal. A riqueza da realidade, com suas singularidades múltiplas, com seus conflitos constituintes, fica perdida no emaranhado de noções moralistas e idealizadas. Através da promessa da salvação e da libertação pela adesão a uma forma metafísica de “pensar” o real, a imprensa tem incentivado a constituição de pessoas castradas em sua potencialidade transformadora da realidade. Tudo indica que essas pessoas compõem a tal Opinião Pública, para a qual um deputado declarou, recentemente, estar “se lixando”.

Mas, afinal, quem se importa com esse público sem opinião, essa massa abstrata que oscila entre a ordem metafísica e o caos terrorífico? Nem mesmo a dita grande imprensa, que diz defendê-la. Não é absurdo dizer que os veículos de comunicação de massa tratam essas pessoas como idealmente livres e incrivelmente potentes. Mas, na realidade, fica a impressão de que as compreende de forma diametralmente oposta. Em outros termos, a tal declaração do deputado bem poderia sair da boca de boa parte dos jornalistas que o julgaram e condenaram. Talvez essa seja uma das razões que os levou a reagir, nos termos de Carlos Heitor Cony, de forma tão imediata e truculenta.



Eduardo Requião e Luiz Geremias

18 de maio de 2009

Introdução ao conceito de Sociedade de Controle

A sociedade contemporânea tem como característica fundamental o controle. Essa tem sido uma abordagem compartilhada por teóricos como Gilles Deleuze (o enunciador do conceito de “sociedade de controle”), Felix Guattari e Michael Hardt, além de seus inúmeros seguidores. Essa noção se conforma a partir da percepção de que a sociedade disciplinar, conceituada por Michel Foucault (notadamente em A História da Sexualidade e Vigiar e Punir), deixa de existir para dar lugar a um controle muito mais extensivo e eficaz.

A sociedade disciplinar tinha como referência basilar a arquitetura do panóptico, um modelo de vigilância prisional composto por uma estrutura circular que tem em seu centro uma torre na qual deve estar um vigia que, sem ser percebido visualmente pelos detentos, tem acesso visual a todas as celas – bem iluminadas graças a duas janelas: uma, interna, que permite a visão do vigia e outra, externa, que funciona como iluminação do interior da cela. O mecanismo disciplinar deve funcionar de modo a que a presença da torre possa dar a referência de uma vigilância perpétua, o que significa que a presença física do vigia na torre é dispensável. Basta a torre, marcada como o lugar da vigilância, pois essa onipresença virtual do vigia induz a que o detento passe a ser o seu próprio vigia.

Não é preciso lembrar que, para Foucault, esse modelo não servia apenas para ser utilizado em uma prisão, mas também na fábrica, na escola, no escritório, no hospital, no hospício ou em qualquer outra instituição típica da modernidade. O modelo de organização da modernidade é o disciplinar, o do panóptico. Foi essa estrutura que deixou de existir para dar lugar àquilo que Deleuze chamou de “sociedade de controle”, nessa nova sociedade que os teóricos (Lyotard em primeiro lugar) chamam de “pós-moderna” (Lyotard falava, ainda na década de 80, do “fim das grandes narrativas” modernas, uma era em que a única certeza é a incerteza).

A passagem para a sociedade de controle foi conceituada por Deleuze num texto curto que lança a noção, mas não a explicita suficientemente. Hardt (um dos autores dos excelentes livros “Império” e “Multidão”, junto a Antonio Negri, um ex-militante das Brigadas Vermelhas) entende que Deleuze forneceu “uma imagem sem dúvida bela e poética, mas não suficientemente articulada para nos permitir compreender essa nova forma de sociedade”.

A compreensão pode ser posta da seguinte forma: na modernidade, havia as instituições e seus muros; na pós-modernidade esses muros deixam de existir e a vigilância se espraia por toda a sociedade. Isso significa dizer que as instituições modernas não deixam de existir, mas sim que o controle extrapola seus muros e se distribui em rede por todas as relações sociais, incluindo a subjetividade – um atributo social, não individual, ao contrário do que comumente se entende.

Em outros termos, e aproveitando as noções de Zygmunt Bauman, outro autor de influência no pensamento contemporâneo, se pode dizer que havia moldes fixos, sólidos (Bauman fala de modernidade sólida), que se dissolvem para dar lugar a redes modulares, flexíveis, fluidas (modernidade líquida, diz Bauman). Estas são muito mais efetivas como mecanismos de controle e têm um teor de inclusão que é primordial para o mercado mundial capitalista – e os autores são praticamente unânimes ao afirmar que não é possível entender a contemporaneidade sem relacioná-la ao capitalismo.

Esse entendimento pode ser usado para formular uma proposta de interpretação da desvalorização que as instituições clássicas da modernidade têm experimentado. Tudo indica que as entidades clássicas do capitalismo liberal, não servem mais como mediadoras prioritárias do vínculo que o cidadão estabelece com sua subjetividade e com os sentidos sociais. Veja-se, porém, que a função que elas sempre desempenharam, a disciplinar, não esmoreceu, muito pelo contrário.

No entanto, na medida em que a disciplina se imiscui de forma tão pungente e eficaz pela rede social, essas instituições servem apenas como referências que podem e devem ser criticadas sem que as suas funções, libertas dos muros, sejam atingidas. Digo que “devem” ser criticadas por um motivo singular, fundamental para entender a eficácia do discurso do controle: este se apropria da contestação constituída contra a lógica que gerou essas instituições, toma-a para si e torna-a inócua – como, na prática, talvez sempre tenha sido (e há quem diga que a pós-modernidade apenas liberou a inutilidade dos discursos e contradiscursos modernos). Hardt exemplifica bem esse mecanismo quando fala do discurso pós-moderno do racismo.

Racismo sem raça
O racismo pós-moderno chama a atenção por descartar qualquer fundamento biológico. Fatos como esse, levam muitas pessoas a crer que o racismo teria perdido sua força, o que é um ledo engano. É imperativo afirmar, seguindo Hardt, que o racismo se acentuou, tendo apenas mudado de forma e de estratégia. O discurso racista abandonou o fator biológico, é certo, mas para se focar na cultura. Veremos, no desenrolar deste argumento, que essa mudança de postura vem de encontro às abordagens anti-racistas da modernidade, fundadas essencialmente na crítica ao estigma biológico. E é possível, dessa forma, perceber o quanto essas abordagens funcionam para fundamentar o controle pós-moderno. Como diz Hardt, “a teoria racista imperial surpreende, pela retaguarda, o anti-racismo moderno, e de fato coopta e alista seus argumentos”.

O racismo contemporâneo deixa claro que a raça não é uma unidade biológica isolada, afirma que a subjetividade e o comportamento não estão dependentes de genes, sangue ou cor de pele. O racismo pós-moderno entende, desse modo, que tudo isso está dependente, sim, de especificidades culturais. “Assim, as diferenças não seriam fixadas nem imutáveis, mas efeitos contingentes da história social”, pondera Hardt. E tudo na pós-modernidade – leia-se sociedade de controle – é cultural.

As diferenças culturais ocupam, hoje, o lugar que a biologia ocupou na modernidade. Isso pode parecer, para muitos, um avanço, uma libertação, pois é costume afirmar que a natureza é fixa e imutável, enquanto a cultura é maleável e fluida. No entanto, a noção pós-moderna de cultura é tão essencialista quanto o biológico. Não é à toa que hoje se fala tanto em preservação cultural, discurso que une anti-racistas e racistas pós-modernos, fazendo-os parecer farinha do mesmo saco. Não é possível pensar, nessa perspectiva, em miscigenação, em mistura de culturas. Estas devem ser preservadas, dizem.

Para entender melhor, se pode dizer que antes a diferença entre raças tinha um caráter hierárquico: havia a percepção clara de que algumas raças eram mais avançadas do que outras. Essencialmente, havia uma hierarquização como causa das diferenças: uns estavam atrasados, outros avançados, e aqueles um dia chegariam a ser como estes. No discurso racista contemporâneo a hierarquia é efeito de circunstâncias culturais. Hardt utiliza o exemplo da comparação entre alunos descendentes de africanos e outros de origem asiática. O melhor desempenho destes na escola não seria fruto de fatores biológicos, mas culturais: os americanos descendentes de asiáticos dariam mais valor aos estudos, encorajariam suas crianças nesse sentido. Segundo Hardt, “a hegemonia e a submissão das raças não é uma questão teórica, mas advêm de uma livre competição, de uma espécie de lei do mercado da meritocracia cultural”.

Fala-se não exatamente de exclusão, como o discurso oficial – e o discurso dos anti-racistas – diz. Fala-se de “inclusão diferencial”, ou, dizendo mais precisamente, a exclusão surge como efeito da inclusão. Há, assim, uma diferença de grau a considerar, não uma diferença de natureza. Diferenças são, sob essa ótica, não naturais, mas culturais. Todos são iguais, têm as mesmas oportunidades. Se não as aproveitam, não é por algum golpe traiçoeiro da natureza. Podem, assim, operar modificações em sua própria cultura, incluindo-se no capitalismo. Assistindo-se às novelas da TV Globo, por exemplo, pode-se aprender a fazer isso. Árabes, muçulmanos, judeus ortodoxos ou indianos podem aproveitar os avanços da cultura ocidental mantendo seus próprios ambientes culturais. Afinal, a história acabou, como disse Francis Fukuyama, não há mais motivos para conflitos. Basta aceitar a realidade “como ela é”.

Uma realidade especular
Para seguir rumo a uma conclusão desta breve dissertação introdutória ao tema da sociedade de controle, é preciso considerar um ponto fundamental, o da não existência da diferenciação entre fora e dentro no pensamento pós-moderno. Falar sobre isso é retomar o início deste texto, quando se fala da queda dos muros das instituições modernas (bem se pode incluir aí, com toda a sua força simbólica, a famosa queda do muro de Berlim). Porém, o tema merece uma localização de destaque, pois parece ser fulcral para entender melhor o que está acontecendo no presente.


A oposição clássica entre natureza e cultura, fundamentação do discurso civilizador europeu, parece ter perdido o sentido. A lógica pós-moderna é capitalista, não admite dissensos, deve buscar sempre a integração. Nada deve impedir o agregamento e tudo deve estar incluído. Nada pode se pôr no caminho da alucinada sanha integradora do capitalismo. Por isso, não há lugar para estruturas fixas ou regras. Nenhum outro sistema foi tão amante da transgressão quanto o capitalismo, entende Eagleton. Tudo é possível, contanto que circule em seu interior. Parafraseando Marx e Engels, com os termos de Bauman, tudo que é sólido se liquefaz.

Num relance de brilhante insight, Deleuze disse que tudo no capitalismo tem lógica, menos ele próprio, que opera por deslocamentos constantes com o claro intuito de desorganizar o todo para organizar a parte – a dinâmica das tribos pós-modernas (tratadas por Michel Maffesoli) dá mostras de como isso acontece. Simples aplicação da Teoria do Caos, criada para dar forma a uma estratégia de dominação a partir do controle molecular dos conflitos. Essa teoria tem grande aplicação nas estratégias de dominação empresarial, entendendo que há ordem na desordem ou, como Mike Featherstone interpreta, há uma irresistível desordem bem ordenada. É por isso que toda a “revolta jovem” dos anos 1960 não passou de uma bela estratégia de marketing. Não é possível esquecer que o punk, o movimento mais radical nascido dessa “revolta”, saiu da cabeça de um publicitário.

Capturando a oposição para a situação, fazendo dos claros e escuros meros tons de cinza, o capitalismo traz para si toda a vida, mortificando-a. O sujeito não tem contra o que se rebelar, a não ser contra si mesmo. Mas, para fazer isso, precisa se recriar e remar contra a maré da sociedade do espetáculo (Guy Debord) sem, no entanto, sucumbir no “deserto do real”. Precisa, em primeiro lugar, perceber que se encontra em um ambiente especular, no qual tudo o que é dito, inclusive que não há como distinguir dentro e fora, pois tudo está incluído, tem que ser posto no espelho para ser entendido. Não adianta ir contra leis e regras, pois, como bem disse Baudrillard, é preciso amá-las para transgredi-las. Assim, mesmo o delinquente está dentro.

Outra boa demonstração de como funciona esse sistema em que praticamente tudo está posto no espelho é o discurso da insegurança, ou melhor da chamada “segurança pública”. Um sistema que se funda na instabilidade, na transgressão, na ausência quase completa de referências polares, como bem/mal ou certo/errado, que incentiva o consumo obsessivo, produz inevitavelmente insegurança, como seu produto mais precioso. No entanto, esse sentimento de instabilidade e angústia fica remetido, num deslocamento grosseiro, para a ameaça do crime, geralmente o crime cometido por pobres, ou seja, os que roubam pouco, de forma rápida e agressiva. O verdadeiro crime, o verdadeiro gerador da insegurança, aquele no qual se rouba muito, de modo lento e quase indolor, não é sequer mencionado nos discursos de segurança pública. Um tanto estranho isso.

Sem a noção do contraditório, fala-se de alteridade. Mas, que “aceitação do diferente” pode haver em uma subjetividade marcada pelo dogma cristão do amor ao próximo: ama-o como a ti mesmo. Onde está o outro senão no “a mim mesmo”? Trata-se da máxima do monoteísta: se há um só Deus, há uma só verdade num único ente. Não devemos nos iludir com a aparente fragmentação da identidade pós-moderna. Por detrás dela, denuncia Beatriz Sarlo, não está o vazio, está o mercado. O mercado capitalista mundial, diz Jameson e também Hardt (Guattari fala em Capitalismo Mundial Integrado e propõe a sigla CMI) . Tudo indica que, sem tocar nesse assunto, não há como entender o mundo do presente, que tem proposto ser a adesão aos cultos pagãos dessa divindade mercadológica o rito de passagem para entrar no paraíso terrestre do consumo. Mas, se entrar significa ir para dentro, como aceitar que não há mais divisão entre o dentro e o fora?

É necessário, acima de tudo, entender que essa divisão continua valendo, embora tudo indique o contrário. Se não fosse assim, por que os “consumidores falhos” (termos de Bauman) seriam barrados nos shopping centers? Fala-se do real forcluído (que sofreu split off, diria Melanie Klein) a que Slavoj Zizek se refere quando toca o tema da ideologia. Trata-se da pedra fundamental do edifício ideológico da chamada pós-modernidade, aquela sobre a qual vivemos e na qual estamos constantemente a tropeçar quando tentamos pensar a realidade. No entanto, é exatamente aquela que todos dizem não existir (1).

Desse jeito, quem sabe o melhor a fazer é tomar a mão de Alice, como propõe Boaventura de Souza Santos num título de um de seus livros, e encarar esse terrível e maravilhoso mundo que a contemporaneidade nos apresenta. Ainda mais quando sabemos que justamente a sociedade de controle é a que mais falou de liberdade em toda a história humana.

(1) Talvez a definição essencial do dentro e do fora nos seja dada no limite existente entre aqueles que operam essa ilusão especular e aqueles que a consomem inconscientemente. É uma hipótese que merece investigação. Mas, onde operar esse corte?


Luiz Geremias